sobre o projeto
Argos é um aparato de visão, um oculu digital. Inspirado em Argos Panoptes, gigante mitológico de cem olhos. Conta com a participação do público para construir um retrato coletivo e mutante formado por olhos e bocas.
Neste aparato de visão semelhante a um par de óculos, estão acoplados visualizadores de imagens digitais para onde o público enviará através de infravermelho, imagens de olhos e bocas feitas em celulares equipados com câmeras fotográficas.
Óculos. Palavra plural originada do latim oculu. Instrumento utilizado para auxiliar e ampliar a visão; ver por um oculu é um sintoma de não conseguir ver, e significa que os olhos são ludibriados. Nesse oculu digital, a imagem digital é código mediado pela tela.
Os olhos são vistos ao mesmo por quem usa o aparato e por quem o observa, e as bocas, apenas por quem o observa. Olhos nos olhos, boca na boca, a sensação é de um rosto que se configura ao acaso, com piscadelas e murmúrios aleatórios.
Ao mesmo tempo em que lança ao público a questão de como as novas tecnologias poderão ser usadas para expressar a sua subjetividade, Argos já indica a resposta.
Os diversos olhos e bocas enviados ao aparato darão forma a um rosto miscigenado e mutante, construído pela diversidade fisionômica e pela forma particular com que cada pessoa manipula o equipamento para obter a imagem, fotografando outros ou a si próprio.

“Argos” lançava, assim, ao público não só questões sobre como as novas tecnologias estão participando de uma outra codificação da subjetividade, descolada da referência ontológica e mediada pela tela, como sugeria uma cultura wireless pautada pela miscigenação e mutação, em consonância com uma contemporaneidade que se faz pela crítica da sociedade do espetáculo a partir do espetáculo de si mesmo.
Uma espetacularização autônoma, criativa e corrosiva que se constrói pela diversidade fisionômica e pela forma particular com que cada pessoa manipula o equipamento para obter a imagem.
- Giselle Beiguelman